quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

TEXTOS AUTOBIOGRÁFICOS (1)

Perante a tarefa de elaborar um texto autobiográfico o candidato sente a angústia inicial de não saber como começar … o que escrever …

Poderá ter a tentação de proceder a um mero registo cronológico da sua vida, enunciando dados como o local e a data de nascimento, as suas características físicas ao vir ao mundo, os nomes dos familiares, o ingresso na escola …

Parece-nos que a leitura de textos autobiográficos de personalidades célebres, nomeadamente escritores, poderá ser inspiradora, não com o intuito de incentivar o plágio ou a reprodução acrítica de modelos, mas com o objectivo de fazer despertar e gerar novas formas de superar o impacto da página em branco.

Pede-se a colaboração de todos ─ candidatos profissionais, formadores e demais leitores ─ solicitamos por este meio, a indicação de obras autobiográficas para serem aqui divulgadas.

Para encerrar este post transcrevemos um trecho da Autobiografia de Agatha Christie:


Deveria estar a escrever um romance policial; no entanto, com aquela natural tendência do escritor para escrever seja o que for, excepto aquilo que deveria estar a escrever, inesperadamente senti vontade de escrever a minha autobiografia. O anseio de escrever a própria biografia, ouço dizer, tarde ou cedo se apossa de uma pessoa. Subitamente tomou conta de mim.

Pensando melhor, a palavra 'autobiografia' é por demais pomposa. Sugere o propósito de elaborar um estudo acerca da própria vida. Implica escrever nomes, datas e lugares em cuidadosa ordem cronológica. Porém, o que desejo mesmo é mergulhar a minha mão numa espécie de caverna maravilhosa e daí extrair um punhado das mais diversas recordações.

No meu entender, a vida consiste em três partes: o absorvente e habitualmente agradável presente, que corre minuto a minuto com velocidade fatal; o futuro, obscuro e incerto, em relação ao qual podemos imaginar grande número de planos interessantes, e se insólitos e improváveis tanto melhor, visto que ─ como nada virá a ser como esperávamos que fosse ─ ao menos divertimo-nos enquanto os planeávamos; e a terceira parte, o passado, as recordações e as realidades que são os alicerces da vida presente e que nos surgem de repente, trazidas por um perfume, pela forma de uma colina, qualquer canção antiga, trivialidades que nos fazem de súbito murmurar: "Eu lembro-me...", com um peculiar e quase inexplicável prazer.
Esta é uma das compensações que a idade nos dá e, certamente, é muito agradável: recordar.


Agatha Christie, Autobiografia, (Lisboa, Livros do Brasil,s/d)

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