Memórias I
Memórias II
Memórias III
Raul Brandão retratado por Columbano Bordalo Pinheiro
O QUE EU VI E OUVI
(Do meu diário)
REPÚBLICA E MONARQUIA
(Do meu diário)
REPÚBLICA E MONARQUIA
Todos os dias corre notícia de contra-revolução. No Porto (15 de Março de 1911) conspira-se: tem havido reuniões de oficiais e soldados.
– Estamos prontos – dizem. Querem separar Lisboa do Norte e fazer «daquilo uma barcelonada...
Couceiro vai ao Ministério da Guerra prestar declarações. Fervem boatos. Que é isto? E o Junqueiro, de grandes barbas, surge e diz, com o olho em brasa:
– Esta gente tem a habilidade de pôr toda a burguesia contra nós. Não se lembra de que o boi de dar bifes pode transformar-se no boi de dar cornos. O Paiva Couceiro disse exactamente ao ministro da Guerra o que ocorre por aí impresso, pedindo o plebiscito e desligando-se da sua palavra. Ora Couceiro é destes homens que só quatro balas podem deter. Por isso a contra-revolução é possível; por isso e porque à República falta idealismo e grandeza e só tem cometido erros. Estamos pondo contra nós a mesma burguesia que nos deixou fazer a República. E essa gente do Correio da Manha procede com habilidade. Primeiro era preciso tornar o rei simpático, o rei que nunca foi senão um menino-de-coro, e começaram a afirmar que ele quis ir para o Porto e que o não deixaram. Depois limparam-no da montureira, do Alpoim, do Teixeira de Sousa e até do padre Cabral, declarando que a «Monarquia Nova» nada queria com os políticos velhos nem com os jesuítas. Limpo o rei e limpa a Monarquia do esterco, que lhes faltava?Uma bandeira e um herói.
Couceiro vai ao Ministério da Guerra prestar declarações. Fervem boatos. Que é isto? E o Junqueiro, de grandes barbas, surge e diz, com o olho em brasa:
– Esta gente tem a habilidade de pôr toda a burguesia contra nós. Não se lembra de que o boi de dar bifes pode transformar-se no boi de dar cornos. O Paiva Couceiro disse exactamente ao ministro da Guerra o que ocorre por aí impresso, pedindo o plebiscito e desligando-se da sua palavra. Ora Couceiro é destes homens que só quatro balas podem deter. Por isso a contra-revolução é possível; por isso e porque à República falta idealismo e grandeza e só tem cometido erros. Estamos pondo contra nós a mesma burguesia que nos deixou fazer a República. E essa gente do Correio da Manha procede com habilidade. Primeiro era preciso tornar o rei simpático, o rei que nunca foi senão um menino-de-coro, e começaram a afirmar que ele quis ir para o Porto e que o não deixaram. Depois limparam-no da montureira, do Alpoim, do Teixeira de Sousa e até do padre Cabral, declarando que a «Monarquia Nova» nada queria com os políticos velhos nem com os jesuítas. Limpo o rei e limpa a Monarquia do esterco, que lhes faltava?Uma bandeira e um herói.
Ei-los a clamar: – Não hesite o Governo: a bandeira da República deve ser verde e encarnada. – E ficaram com a azul e branca e com o Paiva Couceiro. Agora, dum instante para o outro arranjam dois mil contos, quando nós nunca pudemos conseguir cem, no tempo da propaganda. Homens habituados aos negócios, o José de Azevedo e outros, não lhes faltam. Falta-lhes o Pais – e é o que os republicanos empurram todos os dias para o seu lado. Nós é que nos havemos de apear, verá. E não há dúvida nenhuma de que se houver barulhos em Lisboa temos uma intervenção espanhola. Sabe a vontade que isto dá? A de ir fundar uma república no Sete-Estrelo!
–E ele lá vai, cofiando a barba, pregar a outra freguesia. Muita gente com cara de caso... É aquele tipo dos boatos que segreda ao ouvido:
– Os monárquicos têm uma frota misteriosa... O terror. – Tipos bem instalados na vida sobem o Chiado a toda a pressa, olhando, desconfiados, para os lados. Corto a casa do Alpoim, que sabe sempre tudo e está cheio de medo.
– Que há?
– O plano é fazer uma contra-revolução no Norte, a que se seguirá, naturalmente,uma sublevação imediata dos jacobinos de Lisboa, com assaltos e mortes. [...]
–E ele lá vai, cofiando a barba, pregar a outra freguesia. Muita gente com cara de caso... É aquele tipo dos boatos que segreda ao ouvido:
– Os monárquicos têm uma frota misteriosa... O terror. – Tipos bem instalados na vida sobem o Chiado a toda a pressa, olhando, desconfiados, para os lados. Corto a casa do Alpoim, que sabe sempre tudo e está cheio de medo.
– Que há?
– O plano é fazer uma contra-revolução no Norte, a que se seguirá, naturalmente,uma sublevação imediata dos jacobinos de Lisboa, com assaltos e mortes. [...]
Sem comentários:
Enviar um comentário